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O que é a Falácia da Autoridade?

A falácia da autoridade é uma falácia lógica muito utilizada pelo Marketing, seja na área da saúde ou em outras áreas. Também designada por apelo à autoridade ou argumento de autoridade, é uma falácia que apela à palavra ou reputação de alguma autoridade a fim de validar o argumento. Este raciocínio é falacioso, quando a conclusão se baseia exclusivamente na credibilidade do autor e não nas razões que ele apresentou para sustentá-la.

Este argumento pode ser feito, por exemplo, quando um especialista ou autoridade de um determinado tema aborda um tópico sobre o qual não tem qualquer conhecimento. Noutros casos, também frequentes, a pessoa até é bastante conhecedora do tópico em causa mas os seus conflitos de interesses levam a que exprima uma opinião enviesada ou mesmo contraditória à evidência existente.

Quase todos os assuntos têm figuras de autoridade dos dois lados do argumento, mesmo quando um dos lados é amplamente aceite. Por exemplo, no caso das alterações climáticas, 97% dos cientistas apoiam a premissa que os seres humanos são os principais causadores das alterações climáticas. No entanto, não deixa de haver “especialistas” a dizer o contrário e a criar dúvidas na sociedade quanto a esse papel. Neste caso em particular, acredita-se que o objetivo seja apenas esse. Manter a dúvida, para que nada mude, apesar da abundância de informação que existe quando ao papel do ser humano nas mudanças que estão a ocorrer no planeta.

A opinião do especialista ou de uma determinada autoridade é quase sempre julgada como sendo uma opinião válida. Por exemplo, se um doutorado em Biologia afirmar que a teoria da evolução é uma farsa, poderá criar uma sensação que a evidência científica está do seu lado. No entanto, uma opinião, sem suporte científico, é apenas uma opinião.

Por exemplo, esta imagem é muito popular:

Cupping

Durante as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, Michael Phelps apareceu na piscina com vários hematomas no corpo. Mais tarde descobriu-se que fazia Cupping, com o suposto objetivo de aumentar a sua performance.

O Cupping é uma forma de medicina alternativa que cria uma sucção local na pele. Para além de rebentar os capilares da pele e levar ao aparecimento de hematomas (o que poderá ser prejudicial para a saúde), a evidência sobre esta prática é extremamente pobre.

O melhor estudo de revisão de evidência que existe, uma revisão de revisões sistemáticas, é do Prof. Edzard Ernst, que conclui:

In conclusion, this overview of SRs suggests that cupping may be effective for reducing pain. The evidence is insufficient for other indications. All SRs are based on primary studies with a high risk of bias. Therefore, considerable uncertainty remains about the therapeutic value of cupping.

Michael Phelps não é um especialista na área da saúde e, no entanto, após ter recorrido ao Cupping, surgiram diversas reportagens sobre o tema e sobre os possíveis benefícios desta intervenção (mais uma vez, reportagens realizadas por repórteres sem conhecimento na área, que entrevistaram vários “especialistas” em cupping, com claros conflitos de interesse na sua comercialização). Uma falácia de autoridade, levada a cabo por alguém sem conhecimentos na área da saúde. No caso do Phelps, esta publicidade foi inocente, mas acabou por popularizar uma prática sem viabilidade científica.

Dieta alcalina e as suas bases pseudocientíficas

Um outro exemplo de falácia de autoridade, mas neste caso com várias falsidades associadas, é o caso do prémio nobel Otto Heinrich Warburg. Recebeu o prémio Nobel em 1931 e foi nomeado várias vezes para o mesmo durante a sua carreira. É alguém com uma carreira brilhante e que tem sido usado para dar credibilidade à chamada dieta alcalina e às terapias de “oxigenação celular.”

Segundo os proponentes destas práticas, Otto terá dito a seguinte frase: “nenhuma doença (outras vezes utilizam a palavra cancro) consegue sobreviver em meio alcalino ou rico em oxigénio”. A frase vai mudando de acordo com a conveniência dos seus utilizadores. É importante referir que este chavão não foi dito por Otto e mesmo que tivesse sido, não tem qualquer validade científica.

No entanto, devido à distorção das suas palavras, surgem vários artigos cheios de falsidades na internet com títulos como este:

Sites de propagação de mentiras

Este site tem 3.1 MILHÕES DE SEGUIDORES…o que apenas demonstra a facilidade com que as pessoas podem ser enganadas.

O Dr. Otto Warburg não ganhou o prémio Nobel por descobrir que o cancro não consegue sobreviver num ambiente alcalino ou num ambiente rico em oxigénio. Warburg dedicou-se ao estudo do metabolismo e da respiração celular – particularmente nas células cancerígenas – e o prémio foi atribuído pela descoberta da natureza e modo de ação das chamadas enzimas respiratórias.

Warburg teorizou que o crescimento do cancro é provocado pela produção de energia celular (conhecido como ATP), através da respiração anaeróbia (fermentação de glicose em ácido láctico). Isto ocorreria em contraste com as células normais, que utilizam oxigénio para a produção de energia. Assim, de acordo com as descobertas de Warburg, o cancro poderia ser interpretado como uma “disfunção mitocontrial”.

Esta é a famosa frase que Warburg disse:

Cancer, above all other diseases, has countless secondary causes. But, even for cancer, there is only one prime cause. Summarized in a few words, the prime cause of cancer is the replacement of the respiration of oxygen in normal body cells by a fermentation of sugar.

— Otto H. Warburg

Como claramente se percebe, esta frase pouco tem a ver com as frases constantemente publicadas na internet. No entanto, a distorção das suas palavras é frequentemente utilizada para vender produtos, livros ou tratamentos à base da “oxigenação celular” ou terapias alcalinas. O objetivo é utilizar a imagem de autoridade associada a um prémio Nobel para dar credibilidade a práticas pseudocientíficas.

É verdade, no entanto, que a determinada altura Otto colocou a hipótese de utilizar oxigénio para tratar doenças cancerígenas. No entanto, os estudos realizados falharam a comprovação dessa teoria.

Isto foi em 1931…e apesar de Warburg ter dado importantes contributos na área da fisiologia e bioquímica, sabe-se hoje que as mutações celulares (seja os oncogenes ou os genes supressores de tumor), são a causa do surgimento de neoplasias. As alterações metabólicas são consideradas como resultado e não como a causa dos tumores.

Sabe-se hoje que a acidificação da região onde o cancro se encontra é provocada pela rápida divisão celular da neoplasia, que não é acompanhada pelos vasos sanguíneos, levando a uma diminuição da oxigenação da região. Essa diminuição de oxigenação “obriga”, para que as células sobrevivam, à realização de respiração anaeróbia (sem oxigénio) por forma a produzir energia. Isso leva à acumulação de ácido láctico e acidificação da região onde o cancro se encontra.

Segundo os seguidores da dieta alcalina, se alcalinizarmos o corpo através da alimentação, conseguiremos reduzir a acidez do corpo e com isso evitar o aparecimento de determinadas doenças, incluindo o cancro. Alguns entusiastas desta técnica, para além da prevenção, também utilizam a dieta alcalina como tratamento de diversas patologias. No entanto, quem sabe o mínimo de fisiologia, sabe que a alcalinização do organismo através da alimentação é impossível. E mesmo que fosse possível, é altamente indesejável.

Um ser humano saudável mantém o pH do organismo no intervalo entre 7.35-7.45. O organismo tem vários mecanismos que regulam o pH, desde a respiração, a filtração renal e outros sistemas de tamponamento, que têm como objetivo que o pH não se altere para lá destes valores. Isto porque são os valores ótimos para que as várias funções enzimáticas que o organismo realiza possam continuar a ocorrer.

Se fizermos uma pesquisa no Google sobre pH do corpo, encontramos as coisas mais incríveis, criadas por pessoas sem quaisquer conhecimentos da área da saúde. Como este exemplo:

A realidade dos factos é bem mais simples:

Ou seja, desviar o pH do organismo, seja no sentido da alcalinidade ou da acidez, levará rapidamente à morte. Os entusiastas da dieta alcalina fazem a seguinte associação: organismo ácido = a organismo doente; organismo básico = a organismo saudável. Esta associação é simplesmente falsa.

O que torna tudo isto mais assustador é que quando procuramos sobre o pH do organismo nos motores de pesquisa, estes dão prioridade a uma série de sites pseudocientíficos que desinformam as pessoas sobre os conceitos mais básicos do funcionamento do organismo humano. Este é um problema que carece de resolução, já que apresentar os sites pseudocientíficos com tanta relevância poderá, mais uma vez, criar a sensação nas pessoas que estes sites têm validade científica (que claramente não têm).

Todos nós temos a responsabilidade de nos batermos por informação de qualidade. No entanto, verifica-se que as pessoas procuram cada vez mais respostas simples para problemas complexos. Esta via do facilitismo, das crendices, das teorias da conspiração, da demonização das instituições são prejudiciais ao desenvolvimento do conhecimento e adiam a tomada de decisões válidas à resolução de problemas.

Só com pensamento crítico e baseado em evidência credível conseguimos combater o flagelo que é a pseudociência e as mentiras na internet.

Caso tenha algum dúvida ou gostaria que algum tema fosse abordado, deixe o seu comentário no nosso blog.

 

– Dr. João Júlio Cerqueira  Especialista de Medicina Geral e Familiar – 

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Falácia da Autoridade – O Cupping e a Dieta Alcalina
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