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Introdução

Hoje vamos falar das medicinas alternativas.

É um tema relevante tendo em conta que as pessoas cada vez mais recorrem a este tipo de tratamentos, em detrimento da medicina convencional ou clássica.

Vamos tentar perceber porque razão isso está a acontecer nos dias de hoje.

O que é a medicina alternativa?

A medicina alternativa pode ser descrita como as práticas na área da medicina, para as quais não existe suporte científico que validem a sua eficácia. Ou seja, não há estudos científicos válidos, robustos, que nos permitam dizer se este tipo de tratamentos funcionam.

A partir do momento em que exista evidência suficiente que suporte a sua utilização, a medicina alternativa deixa de ser alternativa e passa a fazer parte da medicina convencional.

Ou seja, a diferença é entre o que está provado e o que não está provado que funciona.

Existem algumas dezenas de tipos de medicina alternativa, mas destaco as mais conhecidas, como a homeopatia, a naturopatia, o raiki, o shiatsu e a acunpuntura.

A toma de ervas e suplementos, algo que está muito em voga nos dias de hoje, é também considerada uma medicina alternativa, apesar de numa categoria diferente, porque a maioria dos produtos vendidos não têm qualquer suporte ou evidência científica que funcione.

Porque é que são  utilizadas?

Existem várias razões. Primeiro, as pessoas, hoje em dia, conseguem obter informação mais facilmente recorrendo à internet e, quando um doente sofre de uma patologia que lhe causa grande aflição ou desconforto, tenta encontrar uma solução para o problema. Principalmente se tiverem recorrido aos cuidados de saúde convencionais e a resposta ao tratamento não tiver sido a desejada.

Aqui entra algo extremamente importante, que nós médicos chamamos de “gestão de expetativas”. Explicar a um doente que entra no consultório com uma dor no ombro e que essa dor vai demorar meses a passar, que é o processo de evolução natural desse problema, por vezes é dificil de aceitar por quem está do outro lado, que se sente frustrado com a resposta.

Isto é agravado pelo “imediatismo” dos dias de hoje…queremos tudo agora e já. Em relação a soluções para os nossos problemas de saúde passa-se o mesmo e se o médico não dá resposta, procuramos outra solução.

Outra razão do crescimento das medicinas alternativas é a percepção que são mais fáceis de compreender pela população geral, são mais baratas e mais seguras. Além disso, assumem muitas vezes o rótulo de medicinas naturais e na lógica da população o que é natural é bom.

É uma lógica errada…

Existe uma espécie de dicotomia entre a medicina clássica, associada a um certo artificialismo, a produtos feitos em laboratório, a algo sintético e as medicinas alternativas, que recorrem a produtos naturais, que estão em comunhão com a natureza, que trabalham no equilíbrio das energias, etc.

É importante esclarecer que a medicina convencional utiliza centenas de produtos que foram descobertos na natureza e alguns ainda são dela retirados. No entanto, a produção em laboratório é uma necessidade para dar resposta à quantidade necessária a produzir, mas não deixa de ser a mesma substância.

A única diferença é que essa substância tem eficácia comprovada, daí a sua incorporação na medicina convencional, enquanto outras utilizadas nas medicinas alternativas não têm eficácia comprovada.

Outra razão muitas vezes citada pelos doentes é que já fizeram algum tipo de medicina alternativa e sentiram-se melhores…logo, é porque resulta.

Infelizmente, esta lógica também não é correta porque não leva em consideração o chamado efeito placebo, provavelmente das ocorrências mais incríveis do corpo humano.

A palavra placebo deriva do latim e significa “agradar”.

O Placebo é definido como um tratamento que apesar de não ter qualquer ação nos sintomas ou nas doenças, pode causar um efeito positivo no doente.

Por exemplo, se eu lhe der um comprimido de açúcar para as dores, você vai sentir-se melhor, com menos dor, apesar do açúcar não ter qualquer tipo de efeito fisiológico no tratamento deste sintoma.

Este efeito foi descoberto em estudos clínicos, em que os médicos administravam um medicamento com uma substância ativa a um grupo de doentes e um comprimido de açúcar (placebo) a outro grupo. O objetivo era estudar os efeitos do medicamento com a substância ativa. No entanto, aperceberam-se que o comprimido de açúcar tinha muito mais efeitos do que seria de esperar. Em alguns casos, os efeitos adversos dos comprimidos de açúcar chegavam a ultrapassar os do medicamento propriamente dito!

De fato,a potência do efeito placebo é impressionante, podendo tratar sintomas em 30 a 40% dos casos, chegando a 90% em algumas situações!

Este efeito placebo é algo que ainda não está bem compreendido…pensa-se que este efeito se deve em grande parte à expetativa do doente. Se pensar que o medicamento lhe vai fazer bem, esse pensamento acaba por condicionar o efeito do medicamento, mesmo que seja só açúcar…e no fim, vai sentir-se melhor. Significa que a componente psicológica do doente tem um papel central no tratamento de qualquer doença.

O mais engraçado é que utilizando este efeito placebo de diferentes formas obtemos diferentes resultados.

Por exemplo, se eu der ao Otávio dois comprimidos de açúcar para aliviar as dores, a eficácia é maior do que um comprimido de açúcar. E se lhe der uma injeção com água açucarada, esse efeito é maior que a toma de dois comprimidos de açúcar. Em relação a este último exemplo, deriva do facto das pessoas acharem que uma injeção é algo mais agressivo, mais traumático e terá de ser de maior eficácia.

Na prática clínica é algo com que lidamos diariamente. O doente que pede uma injeção para as dores ou pede penicilina injetavel em vez de comprimidos, apesar de nós sabermos que a eficácia é equivalente.

Outra característica engraçada é que podemos mudar o efeito do placebo, mudando a forma como o apresentamos. Se eu lhe der um comprimido de açúcar amarelo, eles vão ser mais eficazes no tratamento da depressão. Os comprimidos vermelhos fazem com que fique mais alerta e desperto. Quando o revestimento do comprimido é verde, ajuda a diminuir a ansiedade e comprimidos brancos aliviam mais os problemas gástricos, como úlceras de estômago ou gastrites. Se o comprimido tiver alguma marca registada, o seu efeito vai ser mais forte e se o comprimido tiver um tamanho maior, também é mais eficaz.

Este efeito é algo incrível que não deve ser descurado e que é a base do funcionamento de algumas medicinas alternativas, se não todas.

Por exemplo, a homeopatia não é mais do que puro efeito placebo.

A homeopatia trabalha com medicamentos diluídos em água até o ponto de não restar praticamente substância nenhuma no líquido. Aliás, segundo a homeopatia, quanto maior for a diluição da substância, mais potente será o medicamento. Esta teoria inspirou-se na “lei da semelhança”. Em linhas gerais, ela diz que a mesma substância que causa uma doença em alguém saudável pode reverter os sintomas numa pessoa já doente. O veneno de abelha, por exemplo, poderia tratar sintomas de alergia se manipulado de modo homeopático.

A diluição atinge proporções ridículas…ao ponto de que se imaginarmos uma esfera que tem como diametro a distância que vai da terra ao sol, só existiria uma única partícula da substância nesse espaço…é fácil de concluir que o medicamento homeopatico é apenas água…e água que se vende a preços exorbitantes.

Mas a Medicina convencional também não tem culpa neste aumento da procura de outras soluções alternativas à medicina tradicional?

Sim, podemos afirmar que a medicina convencional está a perder o charme…Isto está relacionado com o facto de termos uma medicina cada vez mais técnica, mais centrada no computador e nos registos clínicos, centradas no sintoma ou na doença e menos centrada no doente.

Isto fere profundamente a relação médico-doente, fundamental para o sucesso do tratamento.

Não só pelo que falei anteriormente, pelo poder de sugestão, ou seja, se o doente tiver uma boa confiança com o seu médico, ele vai acreditar mais no tratamento. Só esta pequena diferença, acreditar no tratamento, aumenta a sua eficácia pelo poder da sugestão.

Além disso, a relação médico-doente, aumenta a adesão ao tratamento, algo também extremamente importante e que também conduz a um maior sucesso do tratamento.

Esquecemo-nos, frequentemente, que muitas vezes o doente apenas precisa de uma palavra amiga, de alguém que o oiça. E isto é o que ele encontra, muitas vezes, quando procura as medicinas alternativas. E é através desta relação que muitas vezes se atinge o objetivo, que é melhorar o bem-estar e a saúde do doente.

No entanto, não quero que os ouvintes fiquem com a ideia que eu sou contra as medicinas alternativas. Se as pessoas recorrerem às medicinas alternativas para tratamento de sintomas que podemos considerar benignos (dor no ombro, dor nas costas, cervicalgias, enxaquecas, etc) e se sentirem melhor, não faz sentido dizer aos doentes para abandonarem os tratamentos só porque não existem comprovação da eficácia destes tratamentos.

O grande problema das medicinas alternativas surge quando os terapeutas destas técnicas atrasam os doentes ou impedem-nos de procurarem tratamentos válidos para problemas de saúde graves (problemas como o cancro, por exemplo). Pior, quando estes terapeutas convencem os doentes a abandonar práticas de saúde pública extremamente importantes para todos nós, como a vacinação. Ou quando convencem os doentes a abandonar tratamentos como a quimioterapia em detrimento de outros tratamentos sem qualidade validade científica ou eficácia comprovada.

E se algum dos leitores ou ouvintes deste programa se deparar com o técnico de medicinas alternativas que apresenta este tipo de comportamente, o meu conselho é que abandone imediatamente este terapeuta, pelo risco que ele impõe à saúde do próprio doente e de toda a comunidade.

 

Dr. João Júlio Cerqueira – Especialista em Medicina Geral e Familiar

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