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Neste episódio, damos algumas dicas para aprender a defender-se do chamado “disease mongering” ou promoção da doença.

Introdução

Já fizemos anteriormente um programa sobre medicinas alternativas, em que demonstramos o nosso cepticismo relativamente a esse tipo de medicina para ajudar os doentes e resolver seus problemas de saúde.

Para nós, médicos, o objetivo da medicina é mesmo esse…ajudar os doentes e resolver os seus problemas.

E porque acreditamos nisso, hoje estamos cá para demonstrar o cepticismo que existe na comunidade médica relativamente a parte da nossa medicina convencional, em que estes objetivos foram desvirtuados.

Vamos falar sobre disease mongering, que em português significa a promoção da doença. O disease mongering foi um termo criado para designar as actividades dos vários intervenientes na saúde (com a indústria farmacêutica à cabeça) na promoção de doenças, com o objetivo de vender um determinado tratamento, muitas vezes sem qualquer benefício para os doentes.

No fundo, a saúde não deixa de ser um negócio…e como negócio que é, que movimenta bilhões por ano, há quem defenda os seus interesses a todo o custo, às vezes de uma maneira pouco ética. Quando a indústria farmacêutica descobre um medicamento, o objetivo, como é óbvio, é tirar o máximo de proveito económico dessa descoberta.

Isto é feito de várias formas e uma delas é transformação dos problemas comuns da vida diária em doenças, por forma a medicalizar pessoais saudáveis.

Aliás, é oportuno falar mais uma vez do uso intensivo dos ansiolíticos como a diazepam, o lorenin e o victan, presente em todas as sociedades chamadas desenvolvidas, e que constitui um exemplo notável de um medicamento que serve para camuflar as causas da ansiedade mas não trata a causa subjacente a essa ansiedade, que muitas vezes têm na sua origem problemas psico-sociais (desemprego, problemas conjugais ou familiares, etc) para os quais a sociedade não tem resposta ou não quer responder.

Um bom exemplo é a calvície masculina:

Quando do lançamento do Propecia‚ (finasteride), na Austrália, o laboratório Merck lançou uma vasta campanha, desde propaganda em autocarros à utilização massiva da comunicação social, associando a perda de cabelos com traumas emocionais a ela relacionados trazendo, à tona, um “novo” estudo, segundo o qual um terço dos homens experiencia algum tipo de perda de cabelos. O estudo sugeria que a perda de cabelos poderia conduzir ao pânico e a outras perturbações emocionais ou mesmo a um impacto negativo nas perspectivas profissionais ou no bem-estar mental. Há que ressaltar que, mesmo estando proibida a veiculação de propaganda direta ao consumidor do finasteride, o laboratório continuou a tratar a perda de cabelos como um ‘problema médico’, com persistente publicidade instando os a procurarem o seu médico.

Ou seja, o objetivo é apenas aumentar o consumo de determinados bens ou recursos…não há relação com a promoção da saúde ou a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Aliás, o Finasteride está associado à perda de líbido (desejo sexual), um problema que pode ter grande impacto emocional na pessoa.

Outros Exemplos Relacionados com a Promoção da Doença

 

  • Medicamentos relacionados com a menopausa – transformou-se em “doença” alterações que são perfeitamente naturais nas mulheres que atravessam esta fase da vida, sendo que os medicamentos para o tratamento destas alterações estão associados a vários problemas, como maior risco de ataques cardíacos e AVCs.
  • Medicamentos para a pré-osteoporose;
  • Disfunção eréctil feminina;
  • Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção – doença com grande sobrediagnóstico e sobretratamento, submetendo milhares de crianças a medicação com muitos efeitos secundários, sem qualquer benefício, mas com grandes ganhos para a indústria farmacêutica.
  • A invenção da entidade Síndrome de Fadiga Crónica, com o objetivo de “impingir” um novo medicamento.

Mas os Exemplos Não Ficam por Aqui

O Disease Mongering não se fica pela medicação. Também é utilizado na “venda” de Meios Complementares de Diagnóstico sob a forma de Rastreios, como no caso do:

  • Cancro do Ovário;
  • Cancro da Próstata;
  • Mais recentemente, a polémica e controvérsia que abrange o Cancro da Mama.

Quanto ao Cancro do Ovário:

Tem vindo a aumentar o número de casos do cancro do ovário nos países desenvolvidos, é um facto…mas isso é razão para fazer um “check-up”.

As mulheres e os doentes em geral até aos 45 anos, com excepção dos cuidados habituais relacionados com o plano nacional de vacinação, a saúde infantil e juvenil, o planeamento familiar e a saúde materna, devem ir ao médico se apresentarem sinais/sintomas, factores de risco importantes (como se tiverem familiares em 1º grau com doenças genéticas/transmissão hereditária que necessitam a requisição de exames/testes genéticos) ou necessitarem de algum documento médico…

Os check-ups consistem em um dos grandes erros e mitos inerentes à saúde. O mesmo diz respeito a fazer-se uma ecografia pélvica/ginecológica anualmente se não se tiver sintomas. A US Preventive Service Task Force é contra o rastreio sistemático do cancro do ovário porque o rastreio sistemático deste problema não trouxe qualquer benefício às mulheres que a ele se sujeitam.

Algumas Associações são Utilizadas para Promoverem Doenças

Outra forma de promover determinado produto são as alianças formadas entre empresas farmacêuticas, médicos e organizações com o objetivo de aumentar a sensibilidade da população para “problemas de saúde, que segundo estes grupos, estão subdiagnosticados e subtratados.”

Recentemente, a Liga Portuguesa Contra o Cancro promoveu um questionário telefónico a 40000 Mulheres para perceber qual o seu conhecimento sobre o cancro do ovário, com os seguintes resultados:

“1 em cada 4 mulheres falhava consulta anual de ginecologia”, que “a maioria (74%) admite que não está atenta aos sintomas” e que “apenas 1% das mesmas se preocupa com o cancro do ovário”. Isto será preocupante? Não! Não havendo forma eficaz de rastrear a doença, qual é o interesse de impingir uma ida anual ao ginecologista às mulheres? Senão por razões puramente económicas?

Os meios de comunicação social são utilizados para amplificar estas campanhas, criar o pânico e distorcer tudo muitas vezes o esforço que os médicos fazem em consulta, no sentido de explicar que, por muito que gostássemos, não há meios eficazes para detetar precocemente a maioria das doenças. Esta é a verdade e temos que aprender a viver com a incerteza.

O que se pode mudar?

Tem que haver muita prudência na informação em saúde passada à população pois esta não tem o dever de ter conhecimentos na área da saúde/literacia em saúde para poder filtrar estas informações. Deve haver sempre a preocupação em mostrar-se a informação a profissionais de saúde e adequar a informação numa linguagem acessível e adequada a qualquer indivíduo. A publicitação de informação falsa, distorcida e não baseada na evidência deverá ser limitada. Assim, está-se a educar para a saúde e não a alarmar a população!

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Dr. João Júlio Cerqueira – Especialista em Medicina Geral e Familiar

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