O Que Precisa de Saber Sobre o Alcoolismo

 

O Que é o Alcoolismo?

Alcoolismo é um termo amplo para descrever problemas com o álcool, sendo geralmente usado no sentido de consumo compulsivo e descontrolado de bebidas alcoólicas, na maior parte dos casos com implicações negativas na saúde, nas relações afetivas e no papel social do doente dependente. Em termos médicos, o alcoolismo é considerado uma doença psiquiátrica. O abuso de álcool pode potencialmente provocar lesões em praticamente todos os órgãos do corpo, com especial incidência no fígado e no cérebro.

Estatísticas do Álcool em Portugal

Portugal surge de forma sistemática entre os maiores consumidores de bebidas alcoólicas e de álcool a nível Europeu e Mundial. Num estudo recente, encontraram-se estimativas em pessoas com mais de 15 anos, de 580.000 doentes alcoólicos (síndrome de dependência alcoólica), isto é, cerca de 7% da população nacional, e 750.000 pessoas que consumiam álcool em excesso (síndrome de abuso de álcool), o que equivale a 9,4% da população nacional.

Segundo dados do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, de 2010 a 2012, 35,9% dos condutores mortos em acidentes de viação tinham taxas de alcoolemia ilegais, sendo que a grande maioria dos casos (26,1%) apresentavam taxas iguais ou superiores a 1,20 gramas por litro, em contraste com os restantes 9,8% de condutores, que tinham taxas ilegais situadas entre os 0,5 e 1,19 g/l. De facto, o consumo de álcool parece aumentarem em 140 vezes o risco de morte num acidente de viação.

O álcool é uma droga legal e comercializada, fazendo parte dos hábitos alimentares de uma grande parte da população. Para além disso, o álcool aparece muitas vezes associado a inúmeras formas de relacionamento social de natureza ritual, comemorativa, recreativa, para além de fazer parte do estilo de vida ou mesmo da identidade de muitos grupos sociais.

No entanto, convém realçar que se o álcool fosse uma invenção dos dias de hoje, possivelmente seria considerada uma droga ilegal. Um estudo realizado no Reino Unido, comparou as drogas mais consumidas de acordo com 16 critérios. Alguns desses critrérios foram:

  • Mortalidade;
  • Dependência;
  • Perda de função cognitiva;
  • Perda de estatuto socioeconómico;
  • Danos físicos próprios e a terceiros;
  • Atividades criminosas associadas;
  • Custo económico para o país.

O álcool foi considerada a droga mais perigosa, seguida pela heroína e crack.

 

Quais as causas do alcoolismo?

O alcoolismo é influenciado por diversos factores. O processo de dependência em relação ao álcool ocorre de um modo gradual.

O álcool, ao longo do tempo, vai alterando o normal equilíbrio entre as substâncias químicas que existem a nível do cérebro associadas com a sensação de prazer, capacidade de avaliação e controlo do corpo. Esse facto faz que se consuma álcool para recuperar as boas sensações ou para afastar as negativas.

Eis alguns fatores de risco para o desenvolvimento do alcoolismo:

  • Consumo regular de álcool ao longo do tempo, que vai gerando uma dependência física.
  • Idade: quanto mais cedo se inicia o consumo de álcool, maior o risco de desenvolvimento de dependência.
  • História familiar: o risco é mais elevado quando existem familiares próximos com problemas relacionados com o álcool.
  • Depressão e outros problemas mentais, como a ansiedade ou doença bipolar.
  • Fatores sociais e culturais: ter amigos ou pessoas próximas que bebem regularmente álcool aumenta o risco de consumo e de dependência.

Como se manifesta o alcoolismo?

Os sintomas do alcoolismo são muito diversos e passam:

  • Pela incapacidade de reduzir o consumo de álcool;
  • Pela sensação de uma enorme necessidade de consumir álcool;
  • Desenvolvimento de tolerância ao álcool, que obriga a um maior consumo para se obter o mesmo efeito;
  • Consumo de álcool em isolamento ou às escondidas;
  • Sensação física de abstinência (náuseas, suores, tremores) quando não se consome álcool;
  • Problemas de memória;
  • Criação de rituais, consumindo álcool em horários definidos com sensação de frustração se tal não é possível;
  • Irritabilidade;
  • Consumo de álcool para se sentir bem ou para se sentir ”normal”;
  • Problemas legais, financeiros, pessoais e profissionais;
  • Perda de interesse noutras atividades que costumam ser agradáveis.

Dependendo do nível de consumo, o álcool provoca diferentes sensações. Numa fase de consumo inicial, provoca uma reação de estimulação, com redução de inibições. Numa fase intermédia, afeta os pensamentos, emoções, capacidade de julgar e decidir. Em termos físicos, existe um atingimento da fala e coordenação motora.  Em doses mais elevadas, o álcool começa a provocar depressão do sistema nervoso central, podendo induzir coma ou causar a morte.

Que doenças provoca o álcool?

O álcool aumenta o risco de complicações médicas como:

  • Doença hepática (esteatose alcoólica, hepatite, cirrose);
  • Problemas digestivos (gastrite, úlcera, varizes esofágicas);
  • Má-absorção de algumas vitaminas;
  • Pancreatite;
  • Problemas cardíacos (hipertensão arterial, enfarte do miocárdio, AVC, miocardiopatia dilatada, Insuficiência cardíaca);
  • Complicações nos doentes diabéticos;
  • Alterações na função sexual;
  • Problemas oculares;
  • Osteoporose;
  • Complicações neurológicas e Demência;
  • Aumento do risco de infeções;
  • Anomalias congénitas no caso de consumo de álcool durante a gravidez;
  • Cancro da Boca, Garganta, Esófago, Intestino, Mama, Fígado.

 

Como se diagnostica o alcoolismo?

Nas consultas médicas, os profissionais de saúde utilizam para rastreio de consumo excessivo de álcool o questionário CAGE. É um questionário simples, constituído por quatro perguntas. Quantas mais perguntas o doente responder sim, maior a probabilidade do doente ter um problema de dependência alcoólica.

Este questionário alerta o profissional de saúde para a existência de um problema com o consumo de álcool. Segue-se uma boa entrevista com o médico assistente, para avaliação do problema.

Segundo o ICD-10, para diagnosticar um problema de alcoolismo, têm que estar presentes três ou mais dos seguintes requisitos nos últimos 12 meses:

  • Um forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância;
  • Dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância em termos de seu início, término ou níveis de consumo;
  • Um síndrome de abstinência quando cessa o consumo ou o uso da mesma substância com a intenção de aliviar ou evitar sintomas;
  • Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância são necessárias para obter o mesmo efeito;
  • Abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor da substância psicoativa;
  • Persistência no uso da substância, a despeito de evidência clara de consequências manifestamente nocivas.

Se o problema for diagnosticado, podem ser realizados uma série de exames complementares de diagnóstico para avaliar a extensão do problema, como análises clínicas, ecografia abdominal, biópsia do fígado e outros, competindo ao médico selecionar os mais adequados a cada caso.

Como se trata o alcoolismo?

O tratamento do alcoolismo é complexo, multiprofissional e longo, dependendo da persistência do paciente e de sua rede social de apoio para o processo de cura.

  • Grupos de ajuda mútua, como os alcoólicos anónimos
  • Psicoterapia
  • Terapia nutricional – suplementação vitamínica, principalmente B12 e Ácido Fólico.
  • Medicação
    • Dissulfiram – causa desconforto e mal estar associado ao consumo do álcool;
    • Naltrexona – remove o prazer associado ao consumo de álcool por bloquear os receptores opióides;
    • Acamprosato – desconhecido, para já, o mecanismo de ação;

Sem acompanhamento profissional, aproximadamente 90% dos alcoólatras voltam a beber nos 4 anos seguintes à interrupção.

A principal causa de recaída são emoções negativas (35%), problemas sociais (20%), situações de violência (16%), incapacidade de resistir ao desejo (11%) e testar o autocontrolo (9%).

Testar o autocontrolo ocorre quando o doente deixou de beber, acha que já consegue controlar a quantidade de bebida que vai ingerir, mas após algum tempo perde novamente o controlo.

Fatores de bom prognóstico:

  • Ter problemas psicológicos diagnosticados e tratados;
  • Quando amigos e familiares param de beber e de oferecer bebidas ou já não tinham o hábito de beber;
  • Boa rede de apoio de amigos e familiares.

Sendo o álcool uma bebida culturamente aceite e extensamente utilizado quando as pessoas socializam, existe a tendência de insitir com aqueles que nos acompanham para consumirem álcool. É importante, quando alguém pede uma bebida não álcoólica, evitar o juízo crítico acerca dessa tomada de decisão. A pressão social é contraproducente ao tratamento deste tipo de dependência.

Como se previne o alcoolismo?

A melhor forma de prevenir o alcoolismo seria simplesmente não beber bebidas alcoólicas. Mas o que verdadeiramente interessa é saber beber com moderação.

O que está aconselhado em termos de consumo:

  • Homem: 20–40 gramas por dia.
  • Mulher: 10-30 gramas por dia.

No quadro abaixo deixamos uma tabela de conversão, para compreender a quantidade de álcool que se consome, em média, dependendo do tipo de bebida.

– Dr. João Júlio Cerqueira  Especialista de Medicina Geral e Familiar – 

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