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Obstipação

Como lidar com este problema?

Introdução

A obstipação é um problema muito frequente, tem várias causas  e a sua percepção varia de individuo para individuo.

Primeiro, a obstipação não é uma doença…é um sintoma.  Alguns doentes interpretam-no como um esforço exagerado para defecar (52%), enquanto outros consideram a existência de fezes endurecidas (44%), incapacidade para defecar quando desejado (34%) ou dejeções infrequentes (33%).

Como se pode verificar, a “perceção” do que é ser obstipado varia bastante e por vezes os doentes consideram-se obstipados erradamente, o que pode levar ao uso indevido e regular de laxantes, provocando danos na flora intestinal através deste abuso.

Então, o que é a obstipação?

Segundo a visão dos profissionais de saúde, a obstipação é definida pelos Critérios de Roma III.

Pelo menos dois critérios estão presentes durante pelo menos 3 meses num período de 6 meses:

  • Movimentos intestinais infrequentes (menos de três por semana);
  • Fezes duras ou fragmentadas em mais de 25% das dejeções;
  • Sensação de evacuação incompleta em mais de 25% das dejeções;
  • Esforço excessivo em mais de 25% das dejeções;
  • Necessidade de manipulação digital para facilitar a evacuação;
  • Sensação de bloqueio anorretal em pelo menos 25% das evacuações.

Cerca de 80% das pessoas já sofreram ou sofrerão de obstipação em alguma altura das suas vidas, sendo normais breves períodos de “prisão de ventre”. Dependendo de algumas variáveis, a prevalência de obstipação pode ir dos 1% até mais de 20% nas populações ocidentais. Em estudos de populações idosas, até 20% dos indivíduos na comunidade e 50% dos idosos institucionalizados relataram ter sintomas.

Quais as causas?

Poderão existir várias causas e muitas delas simultâneas, para a obstipação.

A negrito estão as causas principais.

Alterações dietéticas

  • Baixa ingestão de líquidos;
  • Baixa ingestão de fibras;
  • Anorexia;
  • Depressão/Ansiedade.

Obstrução mecânica

  • Tumor colorretal;
  • Diverticulose;
  • Estenose;
  • Compressão externa por tumor/outra causa;
  • Retocele;
  • Megacólon;
  • Anomalias pós cirúrgicas;
  • Fissura anal.

Perturbações neurológicas/neuropatias

  • Neuropatia autonómica;
  • Doença cerebrovascular;
  • Deterioração cognitiva/demência;
  • Esclerose múltipla;
  • Doença de Parkinson;
  • Patologia raquidiana.

Alterações endócrinas/metabólicas

  • Insuficiência renal crónica;
  • Desidratação;
  • Diabetes mellitus;
  • Intoxicação por metais pesados;
  • Hipercalcemia (cálcio aumentado);
  • Hipermagnesemia (magnésio aumentado);
  • Hiperparatiroidismo;
  • Hipocalemia (baixa de potássio);
  • Hipomagnesemia (baixa de magnésio);
  • Hipotiroidismo;
  • Neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN 2);
  • Porfiria;
  • Uremia.

Perturbações gastrointestinais e problemas locais dolorosos

  • Síndrome do intestino irritável;
  • Abcesso;
  • Fissura anal;
  • Fístula;
  • Hemorróidas;
  • Síndrome do elevador do ânus;
  • Inércia do cólon;
  • Hiperreatividade do cólon;
  • Proctalgia fugaz;
  • Prolapso retal;
  • Vólvulo.

Miopatia

  • Amiloidose;
  • Dermatomiosite;
  • Esclerodermia;
  • Esclerose sistémica.

Medicação Muito frequente!

  • Anti depressivos;
  • Anti epilépticos;
  • Anti histamínicos;
  • Medicamentos anti parkinsonianos;
  • Anti psicóticos
  • Anti espasmódicos;
  • Bloqueadores dos canais de cálcio;
  • Diuréticos;
  • Inibidores da monoamino-oxidase;
  • Opiáceos;
  • Simpaticomiméticos;
  • Antiácidos (contendo alumínio, cálcio);
  • Agentes antidiarréicos;
  • Suplementos de cálcio e de ferro;
  • Anti-inflamatórios não-esteróideos (como o Ibuprofeno).

Outros

  • Doença cardíaca;
  • Doença articular degenerativa;
  • Imobilidade/Inatividade/Sedentarismo;
  • Ignorar a necessidade de defecar.

É preciso ir ao médico, caso tenha obstipação?

Prisão de ventre - devo consultar um médico?

Como verificado, a obstipação é um problema muito frequente, não necessitando na grande maioria das pessoas de um estudo detalhado.

No entanto, quando existirem estes sintomas, deverá recorrer ao médico:

  • Alteração no calibre das fezes;
  • Fezes com sangue;
  • Sintomas obstrutivos;
  • Obstipação de instalação recente, com duração superior a três semanas;
  • Sangramento retal;
  • Prolapso retal.

Ele tentará diagnosticar a obstipação recorrendo à história clínica e exame físico.

História Clínica

O médico poderá perguntar há quanto tempo é obstipado, qual a frequência das dejeções, a sua consistência (ver Escala fecal de Bristol) e se tem ou não sangue nas fezes. Também será necessário saber acerca dos seus hábitos alimentares, medicação e nível de atividade física. Para poupar tempo, o doente poderá levar essa informação previamente preenchida.

Escala de Bristol

Exame Físico

O exame físico inclui o exame da região abdominal o toque retal, de forma a verificar qual é o tónus do esfíncter anal e para detetar a presença de obstrução ou sangue.

Exames de diagnóstico

Como referido, muito raramente será necessário pedir exames de diagnóstico.

Descrevemos os testes mais frequentemente pedidos:

Testes sanguíneos: poderá ser pedido um hemograma para detetar a presença de anemia, hormonas tiroideias (inicialmente a TSH) para verificar a existência de hipotiroidismo, principalmente se existir história familiar. Também poderá ser pedido um ionograma, visto que algumas alterações hidroeletrolíticas podem causar obstipação. Testes sanguíneos mais específicos são dependentes da história clínica e exame físico.

Colonoscopia: Com este exame, é possível observar todo o intestino grosso. O objetivo é detetar algum tipo de alteração a este nível que justifique a obstipação. Por vezes, poderá ser necessária a realização de biópsia.

Marcadores radiopacos: Com esta técnica, o doente engole cáspsulas que contêm marcadores visíveis com o recurso à radiografia. Estes marcadores movem-se através do trato gastrointestinal com o resto dos alimentos e acabam, naturalmente, por ser expelidos com as fezes. Três a sete dias após engolir os marcadores, são realizados várias radiografias abdominais para ver o seu movimento através do cólon. Serve para avaliar o tempo de trânsito ao longo do instestino, que poderá estar diminuído. Na imagem seguinte é possível ver os marcadores radiopacos alojados no reto.

Utilização de marcadores radiopacos para diagnóstico da obstipação

Testes de função anoretal: Servem para verificar se existe alguma disfunção do anûs ou do reto.

  • Manometria anal: utiliza sensores de pressão e um balão, que é insuflado no reto. O objetivo é verificar a sensibilidade e função do reto e o nível de contração do esfincter anal.
  • Teste de expulsão do balão: consiste em encher um balão com água depois de inserido no reto. Posteriormente, o doente é instruído a expulsar o balão no WC. É medido o tempo que demora essa expulsão. Se a pessoa não conseguir expelir um balão com menos de 150mL ou se demorar mais do que um minuto a realizar a expulsão, poderá existir uma disfunção do assoalho pélvico.

Defecografia: É um exame radiográfico para observar a função de todo o assoalho pélvico.  O teste também identifica alterações estruturais do reto e do anús, como o retocele e prolapso retal. Neste teste, o profissional de saúde enche o reto com uma pasta radiopaca, da mesma consistência das fezes. Depois, o doente senta-se numa sanita dentro de uma máquina de Raio-x.  Pede-se ao doente para apertar o esfíncter para impedir a saída do bolo fecal. Depois, é-lhe pedido que realize a dejeção. O radiologista posteriormente observa se existe alguma alteração. Deixamos, como exemplo, uma defecografia onde foi detetado um retocele.

Defecografia com retocele - causa de obstipação

Como tratar a obstipação?

O tratamento da obstipação depende da causa, severidade e duração.

Poderá incluir um ou mais dos seguintes pontos:

  • Alterações na dieta;
  • Exercício físico e alterações de estilo de vida;
  • Medicação;
  • Cirurgia;
  • Biofeedback.

A primeira linha incluí a dieta, o exercício e alterações do estilo de vida, assim como a medicação. Caso não seja suficiente, poderá ser necessário ponderar outros tratamentos.

Dieta

A Academia de Nutrição e Dietética Americana recomenda o consumo de 20 a 35 gramas de fibras por dia nos adultos. O consumo médio é de apenas 15 gramas por dia. As pessoas tendem a comer demasiados alimentos processados, dos quais as fibras naturais foram removidas.

Em baixo, está um quadro com alimentos ricos em fibra. As pessoas com obstipação deviam limitar a ingestão de alimentos sem fibras, como é o caso dos gelados, queijo, carnes e alimentos processados.

Exemplos de Alimentos com Fibras

Cereais, Pão e Leguminosas Fibra
½ copo of feijões, cozinhado 6.2–9.6 gramas
½ copo de trigo triturado, cereal pronto a comer 2.7–3.8 gramas
⅓ copo 100% farelo, cereal pronto a comer 9.1 gramas
1 pequeno bolo à base de aveia 3.0 gramas
1 pequeno bolo à base de trigo 4.4 gramas
Frutas
1 maçã pequena, com casca 3.6 gramas
1 pêra média, com casca 5.5 gramas
½ copo de framboesas 4.0 gramas
½ copo de ameixas cozidas 3.8 gramas
Vegetais
½ copo de abóbora, cozida 2.9 gramas
1 batata doce cozida, com casca 3.8 gramas
½ copo de ervilhas cozidas 3.5–4.4 gramas
1 batata pequena cozida, com casca 3.0 gramas
½ copo de vegetais variados, cozinhados 4.0 gramas
½ copo de bróculos, cozinhados 2.6–2.8 gramas
½ copo de legumes verdes (espinafre, couve, etc), cozinhado 2.5–3.5 gramas

Fonte: U.S. Department of Agriculture and U.S. Department of Health and Human Services, Dietary Guidelines for Americans, 2010.

Beber água e outros líquidos à base de frutas e vegetais (sopa), poderá ajudar a fibra a ser mais eficaz na normalização da função intestinal.

O aconselhado será entre 1.5 a 2L de líquidos por dia, mas isto varia de acordo com a saúde do doente e nível de atividade física.

Exercício e Alterações de Estilo de Vida

O exercício diário ajuda bastante no controlo da obstipação. Outra estratégia é tentar realizar uma dejeção sempre no mesmo horário, diariamente. A melhor altura é 15 a 45 minutos após as refeições, de forma a aproveitar o reflexo gastrocólico.

Qualquer desejo adicional de defecar deverá ser satisfeito.

Medicação

Quando existe medicação que pode causar obstipação, o médico poderá sugerir parar ou trocar esse medicamento. O exercício, a dieta e as alterações de estilo de vida são preferíveis aos laxantes. No entanto, quando não são suficientes, poderá ser necessária a sua utilização. Para pessoas que dependem dos laxantes para terem evacuações, deverão procurar o médico de forma a removê-los de forma segura. Para a maioria das pessoas, parar com os laxantes irá restaurar a habilidade natural do intestino para se contrair.

Cirurgia

A cirurgia poderá ser necessária para correção de algum tipo de bloqueio anoretal, como um prolapso. A remoção cirúrgica de parte do cólon também poderá ser uma opção para as pessoas que apresentam um trânsito colónico lento, com sintomas que não respondem a outros tratamentos. No entanto, é necessário pesar os benefícios e as consequências desta intervenção.

Biofeedback

O biofeedback é utilizado em doentes com alterações na função dos músculos anoretais. O biofeedback utiliza sensores para medir a função dos músculos. Se a sua utilização for incorreta, o profissional de saúde ensina alguns exercícios de forma a corrigir o comportamento. Serão necessários cerca de 3 meses de treino antes da obtenção de resultados. 

Recomendações da Dietista Ana Rodrigues:

Para evitar a obstipação ou a prisão de ventre, deve ter uma dieta rica em fibras, beber pelo menos 6 a 8 copos de água/chá por dia e praticar exercicio fisico regularmente.

Contudo, seguir uma dieta rica em fibra não significa que deve evitar outros elementos básicos.

Por exemplo, a carne, o peixe e os ovos devem estar presentes na quantidade e com a frequência recomendada nos guias alimentares. Entre os cereais, deve dar preferência aos integrais e limitar o arroz, que tem efeitos adstringentes, a uma 1 ou 2 vezes por semana e, se possível, combinado com legumes.

Se possível, para aproveitar a sua fibra ao máximo e o seu conteúdo em água, os legumes e as hortaliças, devem ser consumidos crus, já que são um ingrediente perfeito para as saladas que se devem temperar com azeite. Tal como as frutas, sempre que possível, devem ser consumidas com casca, bem lavada.

Entre as bebidas, deve evitar as que incluem limão, o qual também é adstringente. E quando cozinhar prefira a cozinhar a vapor, ferver, escalfar, grelhar, assar no forno, saltear e à papelote.

Para cozinhar as leguminosas deve pô-las de molho mais de 8 horas e acabar a fervura a metade do tempo, para que se reduza a possibilidade de provocarem flatulência…embora possa também acrescentar cominhos na cozedura, com o mesmo efeito.

Para temperar a comida é melhor evitar as especiarias fortes como a pimenta, o pimentão e a malagueta usando em substituição as especialmente digestivas ervas aromáticas como a salva, o tomilho, o funcho fresco; a erva-cidreira ou o manjericão. Nunca use a varinha mágica ou o “passe-vite” nos cremes e purés, visto que os alimentos perdem parte da fibra.

Consumir alimentos muito frios ou muito quentes, estimula o trânsito intestinal.

Exemplo de um plano alimentar para obstipados:

Pequeno- almoço:

5 ameixas (50g) + 1 copo de sumo de laranja natural (200 ml)

Meia da manhã:

2 iogurtes bio com fibras + 1 pão escuro (40g)

Almoço:

2 colheres de sopa de azeite para cozinhar;

Macarrão integral (60g) com molho de tomate (40g) + 1 bife de vitela (150g) com endívas (50g)

Sobremesa: 3 biscoitos integrais + 1 rodela de ananás (150g)

Lanche:

2 biscoitos integrais com fiambre de frango + sumo de laranja natural (200 ml)

Jantar:

2 colheres de sopa de azeite para cozinhar;

Feijão verde (250g) refogado com batata (50g) + sardinhas assadas (90g) com tomate (100g)

Sobremesa: 2 biscoitos integrais + 1 copo de leite magro (200 ml)

Seja por obstipação ou por outro problema de sáude, já sabe que na nossa clínica, sente-se em casa…Conheça os nossos serviços.

 

– Dr. João Júlio Cerqueira Especialista de Medicina Geral e Familiar –

– Dra. Ana Rodrigues Nutricionista/Dietista –

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