Sr. Doutor, Queria Fazer os “Exames de Rotina”! – Parte 2

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Hoje vamos falar de mais alguns exemplos de exames que NÃO devem ser pedidos de forma rotineira.

Hemograma

O Hemograma deve ser prescrito tendo em conta o contexto clínico.

Ou seja, o seu pedido deve depender da observação do doente, da história clínica e do exame físico.

As principais razões para pedir um hemograma são:

  • Suspeita ou monitorização de eritrocitopatia primária ou secundária;
  • Suspeita ou monitorização de trombocitopatia primária ou secundária;
  • Suspeita ou monitorização de leucopatia primária ou secundária;
  • Síndrome Febril Indeterminado;
  • Doente com comorbilidades médicas;
  • Monitorização terapêutica das anemias carenciais;
  • Monitorização terapêutica pós-transfusional;
  • Monitorização da neutropenia em doentes submetidos a quimioterapia.

Não é recomendado como rastreio da população em geral, nem deve ser pedido anualmente em contexto de “análises de rotina”.

Se já fez um hemograma, a sua repetição só se justifica se a condição clínica se alterar.

Existem algumas condições em que independentemente de estar doente ou não, deve pedir-se o Hemograma:

  • Gravidez;
  • Crianças dos 6-12 meses em condições socioeconómicas desfavorecidas;
  • Admissão hospitalar;
  • Internamento ou urgência;
  • Idosos institucionalizados;
  • Pré-operatório.

Mesmo em algumas destas condições, existem estudos que não apoiam o pedido (no pré-operatório, por exemplo) de forma sistemática.

Ionograma

Não existem normas nacionais ou internacionais que recomendem, baseadas em qualquer tipo de evidência científica classificável como tal, as indicações para a prescrição do ionograma ou a sua periodicidade. Essas recomendações, hoje em dia, baseam-se nas opiniões de peritos.

Mais uma vez, o seu pedido não deve ser sistemático, nem inserido em “análises de rotina”. O seu pedido deve ser avaliado caso a caso.

As principais situações para prescrição do ionograma são as seguintes:

  • Doentes graves, incluindo, com perda de consciência ou obnubilados;
  • No contexto de doença cardíaca, renal ou hepática;
  • Doentes sob terapêutica com fluidos endovenosos ou alimentação parentérica;
  • Doentes sob terapêutica com fármacos que possam alterar as concentrações dos iões que constituem o ionograma;
  • Doentes com poliúria (urinam muito), oligúria (urinam pouco), polidipsia (necessidade de beber muitos líquidos), vómitos, diarreia, ostomias digestivas ou urinárias;
  • Doentes com tonturas, fadiga muscular, alterações do comportamento, ou quedas fáceis.

Mais uma vez, existem exceções, em que independentemente do contexto clínico, de estar doente ou não, o ionograma deve ser pedido:

  • À entrada de um Serviço de Urgência ou de uma UCI;
  • Na admissão de um internamento;
  • Pré-operatório;
  • Doentes em diálise.

Eletrocardiograma de rotina

Um eletrocardiograma de rotina (ECG) é outro exame não indicado em adultos sem sintomas com baixo risco para doenças cardiovasculares. Embora as evidências sejam insuficientes para determinar os benefícios e malefícios de ECG de rotina em pacientes de risco intermediário ou elevado, é razoável pedir apenas nestes casos o ECG, uma vez que retratam situações em que os resultados provavelmente irão mudar o tratamento.

Nesta mesma linha de orientação, a deteção de certos achados no ECG (por exemplo, anormalidades do segmento ST ou onda T) não adicionam mais informação em termos de risco futuro para o doente que os fatores de risco tradicionais como o colesterol alto, a hipertensão, o tabaco, a diabetes, a obesidade e a história familiar de doença coronária prematura.

Rastreio do Cancro de Pele (Melanoma)

Embora o rastreio possa aumentar o número de melanomas diagnosticados, não há nenhuma evidência de que esse aumento de deteção diminua as complicações ou a mortalidade.

Estudos na população têm mostrado que existe grande aumento de biópsias de pele realizadas e que são encontrados mais melanomas em estágio inicial, mas com pouca mudança na mortalidade, sugerindo que o rastreio leva ao excesso de diagnóstico. Também não parece haver provas suficientes para determinar se os benefícios superam os danos em relação ao ensino do autoexame de pele aos doentes.

No entanto, alguns grupos de especialistas têm recomendado pelo menos um exame de pele completo como linha de base, com um aumento da vigilância em pacientes com maior risco de melanoma.

Acrescentar ainda que o aconselhamento pode efetivamente modificar o comportamento, incluindo aumento do uso de protetor solar e a evicção de solários (conheça alguns conselhos para evitar os cancros de pele mais comuns).

Espirometrias

A realização de rastreio de doenças como a Asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) em pessoas sem sintomas não é suportada pela evidência.

No entanto, em indivíduos com mais de 40 anos, com história de tabagismo (> 10 UMA), poder-se-á realizar uma espirometria, com o objetivo de se efetuar um diagnóstico precoce de DPOC.

Outros

Existem outros maus exemplos de “exames de rotina” ou de “rastreio” que consomem recursos e sem provas dadas em termos de benefícios para a população, seja em saúde,  longevidade ou qualidade de vida. Ficam outros maus exemplos:

  • Doseamento da Proteína C Reativa altamente sensível (hs-CRP);
  • A determinação do Índice tornozelo-braço (ITB);
  • A medição da espessura da íntima-média da artéria carótida;
  • O doseamento da homocisteína;
  • O doseamento da lipoproteína(a).

Outro procedimento que deve ser igualmente desencorajado, com base no conhecimento atual, é o exame sumário da urina, pedido, mais uma vez, de forma rotineira.

Parte 1Parte 3

– Dra. Joana Carneiro Especialista de Medicina Geral e Familiar –

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