Sr. Doutor, Queria Fazer os “Exames de Rotina”! – Parte 3

exercicio fisico 3

Agora, os bons exemplos!

Risco cardiovascular em adultos assintomáticos

O cálculo de risco cardiovascular (CV) é já usado amplamente na prática clinica diária através do SCORE.

O SCORE permite calcular qual a estimativa de risco absoluto a 10 anos de evento fatal CV, baseando-se nas variáveis:

  • Sexo;
  • Idade;
  • Tabagismo;
  • Pressão arterial sistólica;
  • Colesterol total.

Este risco é classificado em sete categorias, desde inferior a 1% até 15% ou superior, cada uma com uma cor correspondente, conforme a tabela SCORE.

Tabela Score

Com base no risco fatal CV a 10 anos, considera-se como de risco alto, suscetível de medidas mais intensivas de prevenção, inclusive farmacológicas, um risco absoluto igual ou superior a 5%. Este cálculo encontra-se preconizado para indivíduos entre os 40 e os 65 anos. Nas pessoas adultas com idade inferior a 40 anos, será realizado a cada 5 anos, salvo indicação clínica contrária. Nas pessoas com idade superior a 65 anos, será monitorizado de forma individual, segundo critérios clínicos baseados no custo-benefício de cada intervenção, tendo em atenção a presença de fatores de risco (tabaco, obesidade, história familiar prematura de DCV).

Rastreio da hipertensão em adultos assintomáticos

Há provas evidentes de que o tratamento de pressão arterial elevada pode diminuir a incidência de doenças cardiovasculares.

A pressão arterial elevada é diagnosticada quando a pressão arterial sistólica (PAS) é ≥ 140 mmHg ou pressão arterial diastólica (PAD) é ≥ 90 mmHg em duas ou mais visitas ao longo de um período de várias semanas. Recomenda-se  a avaliação da tensão arterial a partir dos 18 anos.

O intervalo ideal para a triagem de hipertensão não é conhecido. De acordo com os valores encontrados e segundo a norma da DGS, a PA deve ser reavaliada com a seguinte periodicidade:

  • PA <130 / 85 mmHg, reavaliar até dois anos;
  • PA 130-139 / 85-89 mmHg, reavaliar dentro de um ano;
  • PA 140-159 / 90-99 mmHg, confirmar dentro de dois meses;
  • PA 160-179 / 100-109 mmHg, confirmar dentro de um mês;
  • PA ≥ 180 / 110 mmHg, avaliar e iniciar tratamento imediatamente, ou avaliar dentro de uma semana, de acordo com o quadro clínico.

Risco de Diabetes mellitus

Não há estudos randomizados que avaliem a eficácia da triagem para diabetes.

A American Diabetes Association (ADA) recomenda o rastreio para diabetes em pacientes de 45 anos ou mais, sem fatores de risco. A ADA também recomenda testes de diabetes em adultos que estão com sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m2) ou obesos (IMC ≥ 30 kg/m2)  e têm um ou mais fatores de risco para diabetes. Acreditamos que o equilíbrio entre os benefícios e malefícios da triagem para diabetes é incerto no presente e qualquer benefício líquido é provável que seja pequeno.

Triagem para diabetes é improvável que seja tão importante quanto estar alerta para os primeiros sintomas e tratar adequadamente os fatores de risco de doença cardiovascular em todos os pacientes.

Rastreio do colesterol

Indivíduos sem fatores de risco cardiovasculares identificados nem doença cardiovascular conhecida têm apenas indicação para determinação laboratorial do perfil lipídico para avaliar o risco cardiovascular (CV) global: homens com idade ≥ 40 anos e mulheres com idade ≥ 50 anos ou na pós-menopausa.

Infelizmente, é prática recorrente o pedido de colesterol no consultório fora destas recomendações, sem benefícios provados para a saúde a longo prazo.

Rastreio de osteoporose, quedas e fraturas

A decisão de tratar a osteoporose deve ser baseada na probabilidade de fratura relacionada com a idade associada aos fatores de risco clínicos e não apenas no valor da densidade mineral óssea, dado pelo conhecido “exame aos ossos”, a densitometria óssea.

Assim, todas as mulheres com 65 anos e homens com 70 anos devem realizar densitometria óssea. Para a decisão de instituição terapêutica devem ser ponderados os fatores de risco incluídos na ferramenta de avaliação de risco fracturário denominada FRAX.

Neste contexto multifatorial, que vai para além do valor de Densidade Mineral Óssea, as pessoas devem ser ainda questionadas sobre episódios de quedas.

A prevenção das quedas é, neste momento o melhor “tratamento” para a osteoporose.

Outras intervenções para reduzir o risco de fratura devem ser recomendadas à população em geral.

Estas incluem uma adequada ingestão de cálcio e vitamina D, a participação durante toda a vida em atividades de exercício físico, evitar o tabaco e o alcoolismo e a evicção ou tratamento de outros fatores de risco.

Rastreio do aneurisma da aorta abdominal

O aneurisma da aorta abdominal (AAA) é um evento catastrófico, mas incomum. A grande maioria das 9.000 mortes anuais dos EUA devido a rutura do AAA ocorre em homens entre os 65 e 75 anos que são ou eram fumadores. Recomenda-se assim o rastreio por ecografia em homens que compreendem estas características. A prevalência de AAA é muito menor em outros não-fumadores, homens mais jovens e todas as mulheres, pelo que a triagem não é recomendada para estes grupos.

Obesidade e sedentarismo

A obesidade e inatividade física estão associadas à hipertensão, diabetes, aumento de eventos cardiovasculares, entre outros, sendo neste momento uma das grandes batalhas da medicina preventiva.. Por outro lado, a redução de peso intencional e o aumento da atividade física estão associados com uma diminuição do risco, para além de outras vantagens (saber mais aqui). Infelizmente, as intervenções de aconselhamento breve em contextos clínicos têm pouco efeito a longo prazo na redução de peso ou aumento da atividade física.

Intervenções mais intensivas que incluem a educação nutricional, definição de metas individualizadas, abordagens comportamentais, grupos de caminhada e outras atividades sociais podem ser modestamente bem-sucedidas.

Rastreio de consumo tabágico

A prevenção pode fazer toda a diferença quando se fala das neoplasias fortemente e causalmente associadas ao consumo do tabaco, nomeadamente cancro da:

  • Orofaringe;
  • Bexiga;
  • Rim;
  • Esôfago;
  • Estômago;
  • Intestino;
  • Pulmão;
  • Leucemia;
  • etc.

Os médicos devem assim perguntar a todos os pacientes sobre os seus hábitos tabágicos. Parar de fumar traz tantos benefícios imediatos, como a longo prazo. Recomenda-se assim uma breve avaliação e aconselhamento para a cessação tabágica.

Uma abordagem útil para o aconselhamento é a abordagem “5A”. Os médicos e  os doentes devem ainda perceber que parar de fumar é um processo que requer tempo, devendo ser abordado em todas as consultas, sempre que possível, atendendo que a etapa de motivação é também variável consoante a fase e os eventos de vida.

Recaídas fazem parte do processo…o importante é não desistir.

Parte 2Parte 4

– Dra. Joana Carneiro Especialista de Medicina Geral e Familiar –

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